
Morando em Brasília há pouco mais de 3 anos, venho me ambientando aos poucos com os cenários do planalto central. As comidas, as falas, as gentes, as situações, as culturas, os maneirismos, as histórias, os locais... Tudo é sempre muito novo por aqui. Se Brasília tivesse esquinas, como outras cidades tem, poderia dizer que era dobrar uma e ser surpreendido.
Não bastasse isso, recentemente fui presenteado com um exemplar de Renato Russo - O Filho da Revolução (Obrigado, meu amor!). Não é uma biografia padrão. O autor contextualiza o cenário e o momento histórico em que vivia Renato Russo, para que o leitor entenda quem realmente era Renato. Há longas passagens sobre movimento musical, movimento político, ditadura, história de Brasília, movimento cultural, sem uma gota a respeito de Renato. E então, somos brindados com uma cena da vida de Manfredini ocorrida no contexto que acabara de ser narrado.
É um livro excelente, empolgante mesmo. Com uma linguagem que tem um quê de cinematográfica (daria um ótimo filme): o livro já inicia com tensão absoluta, ameaças de bomba a Renato por telefone, ditadura, confrontos estudantis, então a cena corta para um momento distante do passado. Nem JK escapa à narrativa, como não poderia deixar de ser, tão íntima é a história de Renato com a história de Brasília e do Brasil, já que ele viveu naqueles "tempos quentes".
O livro é recheado de fotos antológicas, letras de músicas rascunhadas com a própria letra de Renato e confissões de amigos, parentes e conhecidos do cantor. É um livro de muitas páginas, que impressionam à primeira vista os menos afeitos à leitura, mas que fisgam o leitor de cara. Não dá pra desgrudar fácil da obra. Assim como não dá para memorizar o turbilhão de informações históricas que são metralhadas linha a linha. Você vai lendo e vai descobrindo o porquê dos títulos e letras e atitudes de Renato, mas não de forma direta, o autor faz você descobrir as coisas de forma sutil.
A narrativa não segue uma ordem linear. Ela segue como um flash que brilha aqui e se apaga ali, reaparecendo mais adiante, e de volta outra vez. É específica em citar nomes, endereços, datas, marcas, e situações. Mostra um Renato comum e sonhador, como todo adolescente o é. Que se achava feio e desejaitado. Que se intimidava fácil, mas não deixava transparecer, sempre com respostas ácidas, mordazes e irônicas na ponta da língua. Um CDF como toda classe ou escola tem. Um obstinado e idealizador como poucos são. Pode-se dizer, sem desmerecer sua trajetória e seu talento, que Renato esteve nos lugares certos nas horas certas. Na efervescência que eram aqueles tempos de ditadura, com a cultura punk explodindo pelo mundo, enquanto aqui o que explodia eram as bombas de gás lacrimogeneo, com o movimento estudantil cada vez maior, conturbado e anárquico, a ponto de ser criticado pelo então metalúrgico Lula e artistas da época, aquele era o cenário ideal para o desenvolvimento de uma mente contestadora, crítica e cheia de imaginação - Renato chegou a escrever três volumes contando a história de uma banda de rock fictícia que ele sonhava que seria a sua um dia. Eu gostaria de ler esses livros se um dia forem publicados.
Enfim, ainda estou no primeiro terço da biografia. Mas as surpresas não param por aí. Mais recentemente recebi de um amigo um vídeo, trecho do filme "O Homem do Rio", gravado na Brasília de 1964, o ano em que estourou a ditadura. É um dos filmes que marcou o estilo Nouvelle Vague, com o ator Jean-Paul Belmondo, ícone sexual da época, que faz uma espécie de 007. Naquele mesmo ano, a UnB foi invadida pelos milicos. Dezesseis professores foram expulsos, e outros 223 se demitiram em apoio aos primeiros. O Cérebro de Brasília, como era chamada a UnB pelos estrategistas militares, entrou em coma. Brasília ainda estava por terminar, uma poeira só, e muita coisa ainda estava por acontecer. Renato passou ao largo de muitos eventos dramáticos, não por vontade, mas porque morou um tempo nos EUA enquanto seu pai fazia pós, e depois porque ficou de cama por uns três anos, sem poder andar, acometido por uma doença que lhe rendeu três pinos na perna.
Não bastasse isso (sim, tem mais), o filho de Renato Russo (Giuliano Manfredini) e a irmã de Renato (Carmem Manfredini), mais ex-integrantes do Capital Inicial acabam de fundar uma banda chamada Multiverso Paralelo. O primeiro CD (beneficente) chamado "Rock solidário é rock mesmo" está sendo divulgado via internet e em cartazes espalhados pelo DF (vi um na padaria próximo de casa). O CD está sendo distribuído meio offstream. Com interpretações de músicas clássicas do Legião Urbana, as vendas desse trabalho serão revertidas para entidades que cuidam de viciados em drogas. Veja a seguir a irmã de Renato em entrevista e uma performance do grupo:
O quê? Ficou com saudades das velhas e boas músicas da Legião? Ouça aqui ;-)
Por enquanto é só! :-)








